Em cada letra e cada show, a lembrança de violências e humilhações que perduram — e um sinal de que, ainda que prendam o artista, esta ordem vai mudar
Por Joseh Silva
Para quem mora na periferia, lidar com policiais é traumático. Por volta dos dez anos de idade comecei a entender a lógica desta instituição: “eu dito as regras e foda-se”. As batidas na quebrada sempre foram rotineiras e tenho muitas lembranças das ações tomadas, sempre com muita violência, na maioria dos casos na frente de todos. Agredia-se aos olhos da comunidade, para servirem como exemplo. Todas as semanas isso acontecia, pontualmente.Quando eu via um conhecido tomando uma tapa na cara somente por olhar para o policial, sentia raiva dos homens de farda. Ficava imaginando como era tomar um tabefe, de mão aberta, enquanto se está com as mãos para trás — aliás, que posição ameaçadora, não? Depois que as viaturas saíam só se ouviam os choros dos familiares que, em muitos casos, presenciavam as agressões.Lembro-me nitidamente de um fato que chocou toda a comunidade. Um garoto da nossa quebrada havia sido preso por tráfico de drogas. Cumpriu quase dois anos; teve a liberdade decretada. Ficou tranquilo, começou a trabalhar, ajudar em casa, envolver-se com ações sociais. Porém, na maioria das vezes em que estava na rua durante uma batida, era abordado e agredido.
Certa vez, o policial passou e disse que fosse para casa, ou iria matá-lo. Ele, ligeiro, acatou a ordem. No mesmo dia, por volta das 20h, o policial desceu à paisana as vielas da comunidade e foi em direção à casa dele, com vários comparsas. Havia sido um dia de calor: as pessoas estavam fora de casa papeando. Mas depois que eles passaram, ficamos todos em silêncio. Poucos segundos depois começamos a ouvir os gritos da mãe e dos irmãos pedindo para o policial parar de bater nele. Os gritos eram pungentes e carregados de pedido de socorro e desespero. Passaram-se uns 10 minutos. Os policiais subiram com o menino aos socos e pontapés, enquanto a mãe e os irmãos acompanhavam a marcha. Foi a primeira vez que a favela ficou em silêncio, não se escutava o barulho de uma televisão ligada. Todos entraram para suas casas e silenciaram diante de absurdo que acabara de acontecer. Foram várias as situações em quem deveria zelar por nós alimentando o ódio e colaborando para a formação de bandidos e traficantes. Quando ouvi o Racionais cantarem em uma música: “Não confio na polícia, raça do caralho”, me senti ótimo. Aquela frase dava voz ao que sempre quisemos falar quando víamos os nossos sofrendo na mão deles. Era a representação exata do clichê “lavamos a alma”; era algo que me dava forças, me sentia representado. Lutar contra todo o tipo de repressão, principalmente policial, é e sempre foi uma bandeira do rap. Por exercer a liberdade de expressão, muitos grupos foram tirados do palco e conduzidos a delegacias. Simplesmente porque “eles” entendem que falar da polícia é desataco. Recentemente o rapper Emicida foi preso em Belo Horizonte por falar sobre o que acredita e apoia. Na abertura de seu show iria cantar a música “dedo na ferida”, que é “dedicada às vítimas do Moinho, Pinheirinho, Cracolândia, Rio dos Macacos, Alcântara e todas as quebradas devastadas pela ganância”. Na ocasião disse: “levanta o dedo do meio para a polícia que desocupa as famílias mais humildes”. Prosseguiu: “levanta o seu dedo do meio para os políticos que não respeitam a população e vem com ‘noiz’ nessa aqui, ó. Mandando todos eles se foder, certo, BH? A rua é ‘nóis’.” Segundo a versão dos policiais, ele disse: “eu apoio a invasão do terreno ‘Eliana Silva’, região do Barreiro, tem que invadir mesmo, levantem o dedo do meio para cima, direcione aos policiais, pois todos esses têm que se foder”. Porém, a cena está registrada em vídeo. Não há dúvidas sobre qual das versões é falsa. O que o rap sempre faz e sempre fez foi escancarar as ações preconceituosas da polícia. Mas esta nunca está preparados para ouvir, isto é, receber críticas, mesmo que indiretamente. É programada para agredir, não para pensar. A policia não passa de uma instituição que serve para proteger patrimônios e burgueses. São, sim, capitães do mato, capatazes de uma elite que acha que governa nossas cidades. É lamentável pagarmos impostos e como recompensa recebermos esse tipo de tratamento. Os fatos que relatei no post aconteceram na década de 90, mas as mazelas produzidas por esta instituição continuam. E tenho a convicção que o rap continuará representando nossa voz, nossa postura. Não dá para apertar a mão de quem te surrou a vida inteira. Desculpem-me os adeptos da justiça restaurativa.
via: rede outras palavras
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